O caos como linguagem: maternidade, desejo e colapso em Die My Love
- Beatriz Assis
- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias

Die My Love é um filme confuso, exaustivo e profundamente caótico e, honestamente, é justamente isso que me prende nele. A Lynne Ramsay começa tudo num silêncio quase enganoso, com aquela câmera parada observando a casa como se algo estivesse prestes a apodrecer ali dentro. Quando o caos chega, ele não pede licença. Ele entra correndo, gritando, queimando tudo.
O início ainda tem vida, desejo, música alta, corpos soltos. Depois do parto, tudo muda. A casa vira um espaço sufocante e a narrativa se transforma num surto febril de depressão e mania pós-parto. Nem tudo funciona: alguns personagens parecem existir meio deslocados da história, e o filme insiste tanto no colapso da Grace que, em certos momentos, parece rodar em círculos. Mas mesmo assim, dá pra sentir a instabilidade que Ramsay quer provocar e ela provoca.
Jennifer Lawrence entrega, sem exagero, o trabalho mais cru e vulnerável da carreira. É desconfortável de assistir, não porque o filme quer chocar, mas porque ele nunca perde a empatia. Grace não é uma mãe monstruosa, nem Jackson é um vilão distante. Eles são só duas pessoas se perdendo uma da outra, incapazes de nomear o que está acontecendo. Pattinson, inclusive, cresce muito quando o roteiro finalmente permite que ele acorde pra gravidade da situação.
E preciso falar da beleza absurda desse filme. Tudo em 35mm, com uma textura, uma cor e uma luz que contrastam violentamente com o sofrimento em cena. É um filme feio por dentro e lindíssimo por fora, o que só torna tudo mais angustiante.
No fim, Die My Love não é organizado, nem confortável, nem fácil de amar. Mas o caos dele é gradual, quase hipnótico. Saí emocionalmente drenada, um pouco confusa, mas estranhamente tocada. Talvez esse ciclo nunca acabe. Talvez eles fiquem juntos. Ramsay não responde. Só deixa a gente lá dentro, tentando respirar.
